Duas leis morais que mudam de nome

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“passagem para a Atlântida”, grafite e acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites 1998

Livro III Capítulo V e Capítulo VI

Continuamos a abordar na última série de notícias aqui publicadas, temas relacionados com a nossa tradução de “O Livro dos Espíritos”, convictos – da nossa parte – que a análise aprofundada dos aspectos linguísticos que com o mesmo se relacionam, se encontra apenas no seu começo. Isso também faz parte da ideia que apresentámos de fazer de “O Livro dos Espíritos uma Obra Viva e Aberta.

A revisão linguística a que procedemos vai ser muito incompletamente apreciada se os leitores só repararem na mudança do nome de duas das leis morais.
Realmente, como podemos só parcialmente demonstrar no resumido caderno que aqui publicámos com o título “As Palavras têm Alma”, a tradução foi muito mais além, e só daqui a algum tempo isso irá tornar-se claro.

A mudança do nome de duas leis (a lei da destruição, que para nós fica designada como lei da transformação; e a lei da conservação, que para nós fica designada como lei da sobrevivência) não obedece ao capricho de marcar diferenças, mas única e simplesmente porque consideramos que as traduções até agora em vigor são equívocos sérios do ponto de vista cultural e filosófico, mais do que simples erros de opção formal. Ora vejamos:

A palavra “transformação”

Perguntas 728 a 736 (sobre a ideia da morte como transformação necessária ou como destruição abusiva)

A palavra francesa “destruction”, nas várias versões em língua portuguesa de “O Livro dos Espíritos” foi, até ao presente, traduzida pela palavra “destruição”. Prevaleceu o conceito incorreto da “tradução à letra”.

Assinalemos o distanciamento semântico da palavra “destruição” relativamente à ideia da morte como momento feliz de regresso à pátria espiritual, episódio natural da transformação evolutiva, permanente e universal, que caracteriza a cosmovisão espírita.

Nos dicionários de português o primeiro significado da palavra destruir é: “proceder à destruição de; causar destruição em; demolir, arrasar; aniquilar”. Esses significados remetem o termo para o seu mais nítido campo significativo, tal como está claramente definido na pergunta n° 752 desta mesma obra, ao definir de modo contundentemente negativo o “instinto de destruição”:

Podemos ligar o sentimento de crueldade ao instinto de destruição?
É o instinto de destruição no que ele tem de pior, porque se a destruição é às vezes necessária, a crueldade nunca é necessária. Ela é sempre a consequência de uma natureza má.

De resto, o próprio teor da pergunta n° 730 vem em apoio do que dizemos acima:

Uma vez que a morte deve conduzir-nos a uma vida melhor, livrando-nos dos males deste mundo, sendo mais de desejar do que de temer, porque é que o ser humano tem por ela um horror instintivo que a torna motivo de receio?

Como forma de justificar a adoção da palavra “transformação” como tradução mais correta de “destruction”, para além da pesquisa feita na base de dados Ortolang, podemos ainda socorrer-nos de outros momentos desta mesma obra de Allan Kardec. Recorremos ao texto em francês da resposta a esta mesma pergunta n° 728, que é totalmente eloquente a este respeito:

Il faut que tout se détruise pour renaître et se régénérer ; car ce que vous appelez destruction n’est qu’une transformation qui a pour but le renouvellement et l’amélioration des êtres vivants.

Traduzindo :

É necessário que tudo se extinga, para que renasça e se regenere; porque aquilo que chamais a morte do ser vivo é apenas uma transformação que tem por objetivo a renovação e o melhoramento de todos eles.

No comentário à pergunta n° 182, Allan Kardec esclarece que nos mundos mais evoluídos do que a Terra, a morte não causa a mínima apreensão aos Espíritos, porque a aceitam sem temor, como uma simples “transformação”:

L’intuition qu’ils ont de leur avenir, la sécurité que leur donne une conscience exempte de remords, font que la mort ne leur cause aucune appréhension; ils la voient venir sans crainte et comme une simple transformation.

Traduzindo:

A intuição que têm do futuro, a segurança que lhes dá uma consciência isenta de remorsos, fazem com que a morte não lhes cause nenhuma apreensão: vêem-na aproximar-se sem medo e como uma simples transformação.

Isto é: A intuição que têm do futuro, a segurança que lhes dá uma consciência isenta de remorsos, fazem com que a morte não lhes cause nenhuma apreensão: veem-na aproximar-se sem medo e como uma simples transformação.

Coube ao francês Antoine Lavoisier a honra de dar nome a essa importantíssima lei da ciência, que encerra até profundo significado filosófico, mediante a conhecidíssima expressão: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

As razões de natureza científico-cultural que podem ter levado Allan Kardec à adoção do termo “destruction”, neste capítulo de “O Livro dos Espíritos”, foram esclarecidas por Gabriel Delanne, um dos mais importantes seguidores de Kardec, na sua obra “L’Evolution Animique”, no que toca às investigações e descobertas efetuadas, por altura da publicação de “O Livros dos Espíritos”, pelo cientista francês Claude Bernard, fundador da medicina experimental, sobretudo na sua obra publicada em Paris no ano de 1867 “Principes de Médecine Expérimentale”.

Quanto ao uso corrente da língua portuguesa, se alguém morre de morte natural ou acidental, ninguém dirá entre nós – em sentido próprio – que essa pessoa “se destruiu” ou “foi destruída”.

Juntámos aos argumentos disponíveis no próprio texto do original redigido por Allan Kardec, o comentário seguinte:

A morte, transformação libertadora

Pergunta 339 (O momento da encarnação é seguido de perturbação semelhante ao que se verifica na desencarnação?)

A morte aparece na resposta a esta pergunta bem caracterizada como uma transformação libertadora, o contrário da destruição: “na hora da morte, o Espírito deixa a escravidão”. A que corresponde, no original: “A la mort, l’Esprit sort de l’esclavage”.

A palavra “sobrevivência”

Perguntas 702 – 703 (sobre o instinto de sobrevivência)

Preferimos a palavra “sobrevivência” à palavra “conservação”, pela contaminação semântica que esta arrasta consigo, longe da generalidade antropológica que oferece a primeira. Ao fazer esta opção, sabemos que estão a ser quebrados velhos hábitos de tradução de “O Livro dos Espíritos” para a língua portuguesa. Julgamos, entre outras razões, que foi o conceito da “tradução à letra”, que de maneira nenhuma perfilhamos, que justifica a tradução do termo francês original “conservation” pelo termo português “conservação”.

Consultando muito cuidadosamente a base de dados francesa Ortolang, criada pelo CNRTL-Centre National de Ressources Textuelles et Lexicales, uma boa quantidade de razões recomenda a opção do termo “sobrevivência” e outras tantas razões prejudicam a escolha do termo “conservação”.

Poderia até esta última ser preferida, caso se compusesse com uma segunda palavra, isto é: “conservação da espécie”. Mas a ideia de “sobrevivência” tem maior grau de generalidade e é mais adequada à variedade de usos que a palavra tem ao longo de “O Livro dos Espíritos”, onde o uso do termo “conservação” sempre apresenta inconvenientes expressivos. Concentrar a designação da lei numa só palavra também é vantajoso.

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Sobre espiritismo cultura

A Realidade desta e de outras vidas
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3 respostas a Duas leis morais que mudam de nome

  1. abelbarreiro diz:

    A argumentação é brilhante e não deixa grande espaço a quem não concorde, como era o meu caso. 😀 Pode o tradutor corrigir o autor? Talvez não, mas é certo que a tradução enriquece e facilita a compreensão dos textos. Ademais fica tudo esclarecido nas Notas Finais da vossa tradução.

    • Caríssimo,
      Estava aqui a fazer muita falta um comentário de um dos mais antigos e atentos seguidores de “espiritismo cultura”: Abel Barreiro!…
      A questão que levanta pode imaginar-se pertinente. Porém, o nosso ponto de vista não envolve a noção de que estejamos a corrigir o autor.
      O que nós fazemos, aqui como noutros lugares, é dar às palavras não o sentido que elas parecem ter, mas o sentido que elas têm, de facto!… Se quiser fazer o favor de ler com atenção o trabalho publicado noutra página, o PDF que intitulámos “As Palavras têm Alma”, isso acho que fica muito claro!… Ora faça-me o favor: https://palavraluz.wordpress.com/2017/04/20/palalma/
      Na Nota final fazemos menção da personalidade de Claude Bernard que é apropriadamente citada por Gabriel Delanne, e que utilizou a palavra “destruction” no desenvolvimento da sua teoria a respeito dos processos orgânicos de qualquer ser humano, mesmo no caso das pessoas acabadas de nascer!…
      Em Claude Bernard, o processo do funcionamento normal e do processamento contínuo das células, tecidos e órgãos, etc., correspondem a um processo de “destruction” permanente e contínuo, porque também todos esses elementos se renovam, “se constroem”, TRANSFORMANDO-SE instante a instante!…
      Allan Kardec adoptou o termo que foi usado por Claude Bernard não no seu sentido aparente e imediato, mas no sentido que esse muito prestigiado cientista, à época, lhe atribuiu no contexto da terminologia científica que criou!…
      Dei-me ao trabalho de ler uma parte importante de uma tese sobre Claude Bernard para confirmar este assunto e, repare que Allan Kardec usou o termo para que a ideia estabelecesse um paralelismo com esse critério, com algo que era da mais avançada ciência na altura!…
      Espero que isto ajude um bocadinho e, se quiser, penso que ainda aqui tenho algures um PDF dessa referida tese!… Grande abraço e… obrigado pelo comentário!…

  2. abelbarreiro diz:

    Tudo claro e esclarecido. Aliás nunca vi explicação tão detalhada e fundamentada sobre uma tradução como no caso vertente. Parabéns.

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