Espiritismo na literatura

“…no meio em que vivo tem-se a intuição de tudo e são-nos familiares as várias línguas que falaram as raças humanas, antes e depois da dispersão de Babel. As palavras são a sombra da ideia e nós possuímos a ideia mesma no seu estado essencial…”
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 ( Teófilo Gautier. Espírita. Valencia : Pascual Aguilar, c. 1880, p. 99)
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William Blake (1757-1827) Cristo como Redentor do Homem/aguarela 1808

A representação do mundo dos espíritos ao longo da história da cultura sempre existiu, tanto na literatura como nas artes plásticas, dado que a mediunidade sempre acompanhou o homem em todas as épocas. Escritores inspirados como Dante Alighieri (Divina Commedia), Daniel Defoe (The Serious Reflections during the life and surprising adventures of Robinson Crusoe, with his vision of the angelick world, 1720) ou os poemas de William Blake, são apenas uma amostra.

Robinson Crusoe (Daniel Defoe)

No entanto a influência do Espiritismo, como ciência, filosofia e moral é palpável desde que em 1857 apareceu a primeira edição do Livro dos Espíritos, obra acerca da imortalidade da alma, a natureza dos espíritos e as suas relações com os homens, as leis morais, recebida dos espíritos superiores e codificada por Allan Kardec (1854 – 1869).
Anos mais tarde, formando parte da Revue Spirite de Agosto de 1869 foi editado um opúsculo denominado “Catalogue raisonné des ouvrages pouvant servir à fonder une bibliothèque spirite” (Catálogo Racional das Obras para se Fundar uma Biblioteca Espírita) obra póstuma de Kardec que revela o seu importante empenho pedagógico e que caracteriza de novo o livro como veículo essencial de formação do indivíduo, para o seu progresso intelectual e moral.
Neste catálogo bibliográfico Allan Kardec propunha uma série de títulos que deveriam estar presentes nas bibliotecas de todos os centros de estudo da doutrina espírita. Esse documento assinala obras importantes em diversas áreas culturais e científicas produzidas à data dos inícios da divulgação do espiritismo.
Entre elas encontramos obras de Honoré de Balzac (Seraphitus Seraphita y Ursue Mirouet, herdeiras do conhecimento de Swedenborg), Charles Dickens (Crishtmas Carol), Alexandre Dumas (Madame de Chamblay), Armand Durantin (La legende de l’homme éternel, 1863), Theophile Gautier (Avatar 1857, e sobretudo a sua última novela, Spirite, 1866, que narra uma história de amor no Além), George Sand (Consuelo, La comtesse de Rudolstadt , Spiridion, Mademoiselle de la Quintine, etc.).

Como é lógico, neste repertório bibliográfico predomina a literatura francesa desses tempos já recuados do início do espiritismo, muito embora ele se tenha difundido muito rapidamente por toda a Europa, a seguir pelas Américas, através de Portugal e da Espanha.

Victor Hugo 1878 – fotografia de Nadar

Os artistas que declararam posteriormente aderir ao espiritismo também devem ser considerados, tais como Victor Hugo, em França e Sir Arthur Conan Doyle em Inglaterra.
Também encontramos referências de interesse nas obras de León Tolstoi e em conferências e artigos de Valle-Inclán, nas “Rimas y Leyendas” de Gustavo Adolfo Bécquer e na poesia de Amalia Domingo Soler, Salvador Sellés y Màrius Torres em Espanha, só para dar alguns exemplos.
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Em Inglaterra a literatura relacionada com os espíritos é abundante.
No tempo da Rainha Victória era costume passar o serão da Noite de Natal sentados ao lume ouvindo histórias tradicionais sobre espíritos e revelações das almas.
Charles Dickens (1812 – 1870) foi o autor mais popular do seu tempo com novelas inolvidáveis pertencentes ao realismo social, com realce para os seus famosos contos de Natal. Surpreendem nessas histórias a fluência e a naturalidade com que se fala dos espíritos, como na conhecida A Crishtmas Carol (Um Cântico de Natal), onde aparecem os espíritos do passado, do presente e do futuro, para darem uma lição de ética do comportamento em sentimentos fraternos e universais.
No entanto Dickens mantinha uma posição ambivalente e até contrária em obras como “A Casa Assombrada”, ficando claro que, tanto em Dickens como noutros autores, a inspiração é dominante em relação à própria opinião do autor.
Do máximo interesse é o caso do seu último romance “O mistério de Edwin Drood” que devia ser publicado em 12 fascículos mensais. Dickens faleceu em 1871, antes de ter a possibilidade de acabar a obra.
Um ano mais tarde o jovem tipógrafo norte-americano Thomas P. James, médium principiante, psicografou a continuação do romance, com o estilo inconfundível de Dickens, o que foi confirmado por numerosos críticos literários.
Outro autor inglês a destacar é Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930), criador do celebérrimo Sherlock Holmes, homem de elevada capacidade intelectual e que foi, além do mais, presidente do Instituto Britânico de Ciência Psíquica e presidente da Associação espírita de Londres.
Pese muito embora o facto de que muitas biografias ignoram essa faceta da sua personalidade, foi o autor da “História do Espiritismo” (1926), um trabalho que recolhe textos a respeito de Swedenborg, Irving, Davis, o caso de Hydesville, as irmãs Fox, sir William Crookes etc.
No prefácio dessa importante obra de referência histórica, afirma que “…o espiritismo é, para muitos de nós, o mais importante movimento da história do mundo desde a passagem de Jesus Cristo sobre a terra…”, posto que na base do mesmo se encontra a moral de comportamento transmitida por ele há dois milénios.
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Na Rússia, encontramos na obra de Leon Tolstoi (1828 – 1910) referências a sessões mediúnicas como divertimento para as classes cultas, em Anna Karenina e Ressurreição.
Parece que Tolstoi não chegou a conhecer de facto a profunda mensagem da espiritualidade que encerram as obras de Allan Kardec. Limitou-se a observar o fenómeno das mesas girantes, divulgado no século XIX simplesmenta para chamar a atenção da existência da acção dos espíritos.

No conjunto, porém, encontra-se em Tolstoi um profundo misticismo e a assimilação da mensagem do amor incondicional de Jesus de Nazaré.

Amalia Domingo Soler (1835-1910), que disse: “os mortos são invisíveis , mas não ausentes”

Em Espanha a corrente espiritualista dá-se a conhecer na maior parte das lendas de Gustavo Adolfo Bécquer, onde o mundo invisível tem lugar de destaque, bem como nos escritos de Valle-Inclán.
Na poesia é onde encontramos os melhores exemplos de literatura claramente espírita. Além de “Ramos de Violetas y Cuentos Espiritistas” de Amalia Domingo Soler, a grande Senhora do Espiritismo Espanhol, destacamos o caso dos poetas: Màrius Torres, médico e poeta republicano, neto e filho de espíritas, que morreu prematuramente em 1942, e Salvador Sellés, o poeta alicantino que escreveu:
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“…O homem não vive somente na Terra. As suas ideias, os seus sentimentos, perdem-se como a essência das flores, no Céu. A verdade da existência de um Deus infinito, eterno, encontra-a o homem de igual maneira nas maravilhas de sua alma como nas maravilhas da natureza…”

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Este artigo foi traduzido do nº 1 da Revista Espírita da Federación Espírita Española, de Julho de 2011.
É da autoria de Lola Garcia, Historiadora de Arte e bibliotecária, membro da Asociación Espírita de Valencia Hogar Fraterno.

(Ilustrações: de minha responsabilidade)
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Sobre espiritismo cultura

A Realidade desta e de outras vidas
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Uma resposta a Espiritismo na literatura

  1. A alma humana revela-se aqui na génese do Espiritismo na Literatura.
    A alma humana carece agora da Literatura no Espiritismo para O elevar, em tonalidades, ao lugar a que tem direito com a grandeza e a dignidade típicos da Sua Natureza…

    Um grande abraço,
    Gilberto Ferreira

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