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Dada a circunstância do site da Associação Espírita de Leiria estar em renovação, junto incluo algumas referências que consegui reunir a respeito do mesmo e que podem ser úteis:
Rua das Cervas, nº 135 – Barosa
2400-013 Leiria
ou
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2411-901 Leiria
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Possui Livraria Espírita
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- As raízes da cultura espírita na minha família; a Associação Espírita de Leiria;
- Augusta Pereira Brites/médium; contactos com a Dª Adolfina Carriço Portugal e trabalho no Centro Espírita de Leiria;
– A intolerância dos tempos passados
– A minhas percepções e primeiros entendimentos do fenómeno espírita; fenómenos benévolos e experiências dolorosas; O auxílio da Dª Adolfina e os apoios de minha avó Cristina e tia Augusta;
– A Senhora Dª Adolfina Carriço; memória breve e longínqua;
– A minha amizade e contactos com o Senhor Delfim Luís Pires;
– memórias de Leiria; o Senhor Vasconcelos (Joaquim Inácio Zapata de Vasconcelos).
As raízes da cultura espírita na minha família derivam das iniciativas de contactos estabelecidos pela minha avó paterna Cristina Pereira Brites (n. 1884) e suas duas irmãs Maria Pereira Brites (um pouco mais velha) e Augusta Pereira Brites (n. 1888). Eram filhas de Joaquina de Jesus Brites, da Martinela, freguesia do Arrabal, e de Paulino Pereira, da Abadia, freguesia de Cortes. Foram eles que fundaram a casa situada na Martinela onde vive ainda uma filha de Augusta, Celeste do Rosário Brites Soares Pinto, onde fundaram um pequeno negócio, na Ribeira da Martinela junto do Padrão, na estrada que vai de Tomar a Leiria (EN. 113), no tempo em que ainda não havia carros e o local era paragem quase obrigatória para os viajantes.
Os maridos das duas irmãs Maria (com três filhos muito pequenos) e Cristina (à espera de um menino que viria a ser meu pai, José Pereira da Costa Brites) emigraram para Moçambique tendo, por grande desgraça, falecido ambos por enfermidades ali contraídas. Traumatizadas por esse facto e desejosas de se aproximarem da vida do Além, onde acreditavam encontrar-se seus maridos, estabeleceram contactos em Leiria (nos fins dos anos 20 do século passado) onde facilmente se integraram na comunidade espírita, dado que eram – apesar de gente modesta – gente de fino trato, com educação ainda assim rara nesse tempo. A minha tia Maria tinha feito a quarta classe e a minha avó Cristina tinha estudado dois anos em Moçambique num colégio de freiras, por ali ter vivido em companhia de seu pai.

A minha bisavó Joaquina e o meu bisavô Paulino rodeados dos filhos, em duas fotografias muito antigas, tiradas em lugares diferentes, e compostas em laboratório. A minha avó Cristina está sentada (do lado de quem observa) à esquerda de sua mãe e a minha tia Augusta sentada do lado direito.
Augusta Pereira Brites/médium; contactos com a Dª Adolfina Carriço Portugal e trabalho no Centro Espírita de Leiria;
A minha tia Augusta, no dizer de sua filha Celeste, era pessoa “visitada pelos espíritos”. Tinha uma elevada receptividade e possuía uma fina sensibilidade literária. Sob a orientação doutrinária da Senhora Dª Adolfina, com quem manteve contactos de confiança e proximidade, exerceu as suas capacidades mediúnicas – de que entretanto tinha adquirido a necessária consciência – no Centro Espírita de Leiria, situado ao Terreiro, ao que me disse a minha prima Celeste. Ela própria, em criança, acompanhava a mãe e as tias a essas sessões, tendo a ideia da existência de um salão espaçoso onde decorriam as sessões de doutrinação e encontros vários. Lembra-se de ser acarinhada pelo professor Nicolau Ferreira, que mais tarde – na sua adolescência – colocou a disposição dela a sua bem nutrida biblioteca, por ser muito interessada pela leitura.
Lembra-se, e deu-me confirmação do facto de que era a Dª. Adolfina Carriço que dirigia os trabalhos e era a médium superior. Ouvia as mensagens do além e transmitia-as.
Num maço de antigos papéis que a minha mãe guardou de forma reservada, disponho de vários documentos de alguma importância evocativa, um dos quais contém uma alusão específica à “irmã Adolfina” e ao “irmão Pinto” e que é uma cópia escrita pelo próprio punho de minha mãe, de uma comunicação de 26 de Janeiro de 1929, feita ao Grupo Luz da Verdade, no qual participaria minha avó e minhas tias.
A intolerância dos tempos passados
A tia Augusta passou a usar os seus dotes mediúnicos e costumava fazer uso deles para ajudar pessoas que a procuravam. Estes auxílios, como é norma da doutrina espírita, eram sempre dados de forma gratuita.
As irmãs Maria e Cristina que viviam em Leiria não tiveram problemas, dado que havia uma maior tolerância mas na Martinela o meio era hostil, tanto por parte dos padres católicos como em geral das pessoas a eles afectas.
Tiveram de deixar de frequentar a Igreja Católica que não as admitia. A Celeste e a Mãe foram postas de parte e até o telhado lhe apedrejaram de noite, com grande transtorno que sofreram, sendo como eram uma mulher só e uma filha ainda criança, que tinham ficado ali devido à exploração do pequeno negócio que haviam herdade de seus pais.
As miúdas, na escola, diziam à minha prima Celeste: “Tu quando morreres vais para o Inferno, com a tua Mãe, porque vocês falam com o diabo”. Sofreram muito e a Celeste decidiu afastar-se desta doutrina. Ainda criança decidiu candidatar-se à primeira comunhão e declarou ao Padre que era essa a sua vontade. Narra igualmente o episódio da conversa havida com o padre do Arrabal, a entrega do livro com a teoria da catequese e o dia dessa comunhão, em que sua mãe a acompanhou à igreja do Arrabal e a partir do qual passou a ir à missa com ela. Comenta a propósito não ter sido a mãe que a levou a ela, e sim ela que levou a própria mãe à missa.
Mas as dificuldades e barreiras duraram tanto que, quando a minha avó Cristina faleceu na Martinela, já em Janeiro de 1968, nenhum padre quis acompanhar o funeral, apesar da solicitação insistente da nora Maria de Lurdes Brites, minha mãe. Nessa mesma altura foi a minha prima Celeste que teve a iniciativa de se substituir ao padre, fazendo as orações de encomendação da alma da defunta conforme eu próprio mantenho em memória viva e sensibilizada.
A menção que faço da minha tia Augusta Pereira Brites não tem por objectivo glorificá-la como personalidade ligada ao antigo Centro Espírita de Leiria. O que faz justiça, sim, é a um grande número de pessoas simples, que – de forma altamente modesta e abnegada – foram alimentando a chama de uma cultura e de uma percepção das realidades de aquém e de além vida que dessa forma foram atravessando o tempo e a sociedade em que vivemos, como facho de luz apontado a um futuro esclarecido e repleto de justas esperanças. Mais me ocorre certificar, pelo conhecimento que tenho das adversidades que enfrentou e das muitas dores que padeceu – no corpo e no espírito – que tais pessoas arderam nas chamas de uma inquietação sem refrigérios de paz, tolerância e sem o devido apoio da sociedade que as rodeava.
As minhas preces, ainda hoje se elevam em preito de gratidão e memória que tenho da sua abnegada solidão, de que fui conhecedor ainda em sua vida, e permanece nas recordações da filha Celeste, agora com oitenta e quatro anos de idade, e que tão elegantemente exprime nas suas palavras ditas e na sua vasta obra escrita, por ter herdado de sua mãe um cristalino talento poético e um invulgar bom gosto literário.
As minhas percepções e primeiros entendimentos do fenómeno espírita; fenómenos benévolos e experiências dolorosas; o auxílio da Dª Adolfina Carriço e os apoios de minha avó Cristina e tia Augusta;
Uma fase marcante na minha própria assimilação intuitiva das realidades da vida dos espíritos teve lugar entre os meus sete e nove anos, logo após o falecimento de meu pai, no dia 15 de Dezembro de 1949, por desastre de automóvel, por terem ocorrido comigo alguns episódios de carácter paranormal.
Tinha-se dado com a minha mãe, por essa altura, o mesmo fenómeno que se havia passado com a sua sogra Cristina e tia Augusta (por afinidade): um desejo de aproximação do Além. Conservo dessa altura em meu poder, escrito pelo próprio punho de minha Mãe, o texto de uma comunicação espírita efectuada por intermédio dos dotes mediúnicos da minha tia Augusta, datado de 7 de Fevereiro de 1950 e que reputo – pela claridade da linguagem e pela contida elaboração das ideias – um documento de preciosidade espiritual.
Clicar nesta ligação para ter acesso ao documento referido e comentário respectivo.
Possuo, como acima digo, vários textos de comunicações desse tempo recebidas por intermédio da tia Augusta, que acho serem igualmente documentos de autenticidade doutrinária, valorizados pelo facto de terem sido reescritos pelo punho de minha Mãe. Estou certo que a minha prima Celeste também terá documentos semelhantes consigo.
Os fenómenos por que passei a que acima aludo foram de vária ordem, alguns de carácter benévolo (e até inspirador), mas outros foram de tipo acentuadamente negativo. Aqueles que eram de tipo benfazejo fazem parte de um grupo que eu chamo as minhas “memórias do céu”. Ocorriam quando eu estava acordado, e surgiam – teria eu cerca de 5 anos, ainda era vivo meu pai – como visões de paisagens, cores, nuvens e horizontes abertos por sobre a vastidão do “céu”. O disparador dessas visões era a contemplação de qualquer imagem ou figura que tivesse cores ou sugestões figurativas de certo tipo.
Quando eu folheava uma qualquer revista, e a minha visão captava uma dessas imagens, sentia abrir-se perante o meu olhar como um “prolongamento”, ou uma amplificação de horizontes sugestivos que eu aceitava com vaga admiração a que a frescura da infância tornava quase natural, mas que comunicava uma certa vertigem.
Há um termo na pintura (que vim a praticar mais tarde) ou na poesia – o das “paisagens interiores” – que, tenha o sentido que tiver para quem a usa, ficou – no que me toca – para sempre ligado a essa vertigem feita de luz, espaço coroado de nuvens coloridas que abrem para a altitude sem margens, nem chão, num cenário que é um convite ao voo, infinito além.
As impressões negativas devem ser memórias muito dolorosas de possíveis passagens pelo espaço de inquietação e desconforto entre o nosso mundo e “as regiões da luz”, onde erram as criaturas prisioneiras de inquietações e penas transitórias. O poderoso sentimento que me afligia era meu próprio, não tenho dúvidas, e era de medonha densidade: à minha frente estava uma tarefa sempre hercúlea, de titânico esforço e eu, na pequenez da minha infância, tinha por diante essa tarefa sem fim, e que se situava num plano completamente fora do meu entendimento e das minhas capacidades.
Eram montanhas e montanhas de detritos mergulhados na escuridão que eu tinha de remover, peça a peça, não sei para onde nem como. Ou praias planeritariamente vastas de uma areia cujos grãos tinham que ser contados ou removidos um a um, por mim, sozinho e impotente. No desespero da minha inquietação chorava e dizia:
- Oh, mãezinha, eu não posso, eu não posso!
A Senhora Dona Adolfina, solicitada por intermédio de minha avó Cristina e de minha tia Augusta, exerceu o seu ministério espiritual em minha defesa e sei que disse, em comentário sensibilizado:
- Sim, realmente ele não pode!
Havia ainda, em recordações que minha mãe manteve longe da minha memória (e de que me não lembro): momentos de incontrolada receptividade, certamente mediúnica, durante as quais dizia coisas sem nexo, de teor geralmente impressionante, que apoquentavam muito minha mãe.
Depois dessa fase, e dos auxílios recebidos, as tormentosas visões começaram a atenuar-se, persistindo durante largo tempo um certo sentimento de vulnerabilidade que surgia dentro de mim – quando menos esperava – e que me dava a ideia de estar subtilmente a escorregar para a escuridão dessas montanhas, ou para o esquálido horizonte dessas praias.
Foi nesse momento que me foram preciosos os ensinamentos carinhosos de minha avó Cristina e de minha tia Augusta, que me ensinaram a aplicar a vontade, a exercer o direito de recusa, a crispar os músculos do ventre, a concentrar-me em pensamentos mais claros e luminosos para que a distracção ou a debilidade do espírito não me deixassem ir pelas trevas dentro. Esse sentimento experimentei eu ainda, de quando em vez, até à minha adolescência, em episódios cada vez mais espaçados, de uma certa “distracção” que conduzia à vulnerabilidade.
A idade adulta varreu (ou não…) o acesso a essa angústia. Julgo que alguma coisa porventura ficou e que persiste em mim, algures, em espaços de inquietação da mente objectiva e subjectiva. Uma certa capacidade de viajar num mundo de trevas, de susto e de tarefas ciclópicas de impossível resolução. Julgo que algumas frinchas dessa janela que abre para a escuridão das almas inquietas permaneceram residualmente abertas, deixando passar o frio, a inquietação e o medo.
Tenho aplicado uma imensa fé nas preces que faço a Deus diariamente, e ao meu anjo da guarda, e a todos espíritos de luz que me acompanham – dos mais próximos aos mais insignes – para que ajudem a errância do meu espírito inquieto, lhe dêem a mão e o conduzam pelas veredas abertas à luz, trilhando a via do progresso e do conhecimento nas melhores e mais seguras companhias.
A Senhora Dª Adolfina; memória breve e longínqua;
Da Senhora Dona Adolfina, a cuja presença fui levado na companhia de minha mãe, a sua casa na Rua Comandante João Belo, guardo uma memória cheia de respeito e grande mistério. Era uma pessoa por cuja fisionomia e por cujas palavras não passava a mínima aragem de frivolidade ou de alegria leve. Era duma serenidade grave, interiorizada e – nos breves encontros que me foi dado ter com ela, em sua casa ou em raras abordagens na companhia de minha mãe, recolhi a percepção de que carregava sobre os seus ombros o peso imenso de uma profunda responsabilidade.
A sua presença física era de uma enorme fragilidade, dir-se-ia quase imponderável. Quando passava por mim na rua, olhava-a com o receio das pessoas muito jovens que vêem alguém todo feito de respeitabilidade intocável. Ou era de desgostos porque tivesse passado, ou porque não ia ali nada que fosse superficialmente natural, ou fácil ou sem o artifício complexo do que é sabiamente oculto.
Fosse outro porventura o seu feitio perante pessoas da sua intimidade, foi este a impressão sensibilizada que me foi dado captar, em encontros que foram muito breves.
A minha amizade com o Senhor Delfim Luís Pires
Anos mais tarde, teria eu doze anos (portanto 1954 e daí por diante) a minha mãe dirigiu-se ao Senhor Delfim Luís Pires, conhecidas que eram as afinidades entre ele e minhas tias e avó e a consideração que tinha tido pelo meu pai, para lhe pedir auxílio nos meus estudos. Eu não tinha má vontade no trabalho, mas era comandado por uma fragilidade hipersensível a que a viuvez deprimida da minha mãe não era alheia.

casa onde morava o Senhor Delfim Luís Pires, situada no “Largo do Sete” ou seja, o largo que confinava com o Regimento de Infantaria Sete, junto da Igreja de Stº Agostinho. A porta por onde entrava para as minhas explicações era aquela que se vê do lado direito, ao fundo.
A casa do Senhor Pires passou, portanto, a ser destino assíduo de visitas minhas, tendo-se a sua sala de explicações e de convívios diversos transformado na minha sala de estudo e de interessantíssimas conversas.
Julgo que a minha mãe terá pago alguma coisa por essas explicações, mas coisa muito modesta, dado que o principal da ajuda que me deu foi pela consideração e pelo sentido de solidariedade.
O Senhor Delfim Pires era um empenhado e metódico pesquisador de todos os saberes da idade moderna, de todas as disciplinas principais do conhecimento, dentro do espírito universal duma procura aberta à transcendência. Já nessa altura era muito conhecido e respeitado em Leiria, tendo-se afirmado mais tarde, no dealbar do regime democrático instaurado a 25 de Abril de 1974, como uma das figuras tutelares da comunidade espírita de Leiria, e era carinhosamente apelidado de “Pai Pires”.
Vi e tive acesso à sua larga biblioteca, foi-me explicando os variadíssimos passos do seu método de busca do conhecimento, ao mesmo tempo que me ia dando, sim senhor, explicações a respeito das minhas “coisas da escola”.
Eu diria, contudo, que o mais importante que fui recebendo da parte dele, foi o desvelar de um alargado universo de interesses sem tabus, sem margens e sem inibições. Falou-me e ensinou-me de tudo, como um pai extremoso ou como um mestre no mais clássico sentido do termo, generosidade a que eu correspondia com grande interesse e toda a atenção. Os temas escolares eram mais essencialmente do domínio da matemática e da língua portuguesa; mas daí facilmente se passava a uma grande largueza de temas culturais que eu estimulava com perguntas e a que ele correspondia com respostas francas e amplificantes. A moral e os seus critérios eram o paralelo condutor de todos os temas, as origens da vida e as estruturas da matéria (foi ele que me falou pela primeira vez e em detalhe sobre os átomos, as células e as moléculas); os factos da vida, o casamento, a ética dos afectos, a música (era maestro numa banda muito conhecida, por ter sido sargento músico), os domínios da filosofia, etc. tudo com a simplicidade acessível de quem é capaz de dizer o fácil e o transcendente, parando ao meio das frases para dar lugar à reflexão, ou entremeando graças, pequenos episódio raros, uma pequena anedota, e tantas expressões escolhidas que ficaram – aqui e ali – na minha recordação.
Falou-me da sua amada primeira esposa e explicou-me com interioridade sentimental como se tinha casado, depois de enviuvar, com uma mulher mais simples – e tão simpática – que eu tive o prazer de conhecer. Confidências raras para um rapazito de doze ou treze anos como eu, mas que não caíram em cesto roto, porque tudo guardei com atenção e respeito, e o grave sentimento de estar a receber de longe e do alto, uma serena mensagem de códigos seguros para o entendimento real da vida.
Falei várias vezes com a sua filha mais velha do primeiro casamento e conheci o Luís, filho da segunda esposa, parecidíssimo com o pai e mais ou menos da minha idade, que mais tarde se tornou, como eu, funcionário do Banco de Portugal, mas em lugares diferentes.
Como ia prestando solidariedades por aqui e por ali, recebeu o Senhor Pires também em sua casa como hóspede, um rapaz filho de um amigo de Lisboa. Era oriundo de Macau, chamava-se Andi (ou Andim…) da Costa Li, seria certamente filho de uma Senhora chinesa, pelos seus traços fisionómicos e entendeu o pai que se estava perdendo por Lisboa, já no fim dos seus anos de liceu.
Conversámos muito e fizemo-nos amigos, embora de idades diferentes e ali esteve até terminar o seu “sétimo ano”, coisa de monta nesse tempo.
Outra visita que o Senhor Pires costumava ter, de que me lembro bem, era a de um senhor já de cabelos brancos, muito experimentado na pesquisa e na colheita de ervas aromáticas e plantas medicinais. Não me recordo do seu nome. Recordo sim da meticulosa paixão de ambos em analisar e discutir as características e propriedades de cada planta. E da, para mim, confusa e remota ciência das plantas recordo-me dum nome só, que ficou nos resquícios da memória, com cheiro a flores: a “inca pervinca” ou “vincapervinca” como agora certifiquei na internet!
O Senhor Pires (como era conhecido em minha casa) agraciou-me com a sua confiança e sempre que passava pelo seu modesto escritório onde trabalhava, numa recauchutagem ali numa esquina ao lado da Fonte Grande, ia cumprimentá-lo e trocar com ele breves palavras.
Tudo isto foi muitíssimo antes do 25 de Abril, estava inactivado pela polícia política o antigo Centro Espírita de Leiria.
Eu conhecia as suas inclinações espíritas, de várias coisas me falou a esse respeito. Como eu mostrasse interesse, chegou a emprestar-me vários livros como, por exemplo, “O Conceito Rosacruz do Cosmos”. O livro não era recente, e sim bastante antigo, e não era oriundo de nenhuma organização específica como aquela de que, mais tarde, tive conhecimento, por intermédio de um rapaz já mais velho do que eu, que se associara a uma organização estrangeira residente nos Estados Unidos da América e dali recebia abundante material que chegou a mostrar-me, que não exerceu sobre mim qualquer interesse sugestivo, apesar do entusiasmo que esse conhecido me tentou comunicar.
Outro livro a que tive acesso por empréstimo, creio eu, do Senhor Pires – não afirmo taxativamente por não ter já a exacta memória do facto – foi “O Homem condenado a ser Deus”, de Félix Bermudes, livro que li com todo o interesse.
Nesse tempo a aprendizagem das coisas do espiritismo era praticamente clandestina e, quando comecei a ir a Lisboa, fui algumas vezes a uma livraria semi-clandestina situada num andar de um prédio (sem montra para a rua) onde se vendiam livros dessa orientação na Rua do Salitre, e outros de temáticas semi-ocultas. Não foi uma experiência de que tivesse colhido muito boa impressão, porque muitos livros me pareciam menos bons e de temáticas às vezes oblíquas ao interesse que me movia, ou porque a pessoa que se encontrava talvez não dispusesse de temperamento motivador e conhecimentos adequados.
Não sei se foi lá, se noutro sítio, que comprei esse tal livro de Félix Bermudes que, apesar de ter nessa altura uma vida menos estável, sempre guardei comigo e ainda possuo. Também em relação ao seu autor recolhi entretanto referências diversas que o colocam de certa forma deslocado do eixo mais concreto das doutrinas espíritas conforme os ensinamentos de Allan Kardec. Na altura o livro, porém, foi bastante interessante para mim, porque – além de estar bem escrito – esclarecia muita coisa, nomeadamente a respeito da reencarnação e tinha um longo poema doutrinário, que li com sentimento e de que nunca me esqueci.
Memórias de Leiria; o Senhor Vasconcelos (Joaquim Inácio Zapata de Vasconcelos)
Vivendo em Coimbra há quarenta anos não consigo dizer, em lado nenhum, que sou dali. Nasci em casa do meu avô em Cernache do Bonjardim, mas toda a apreensão do mundo e da vida se foi construindo em Leiria e no seu universo de relações pessoais e culturais, que reconhecia como fortemente estimulante e valioso.
Gente de cultura espírita era fácil de encontrar e a abordagem do assunto não estava sujeita a constrangimentos, certamente pelo elevado prestígio social e cultural de que gozavam muitos dos aderentes e participantes na vida espírita, de cujos elementos destacados ainda conheci mais alguns, já para não falar no Senhor Capitão Ribeiro e na Srª Dª Joaninha, pais de um condiscípulo meu de ensino primário, o José Jaime Fernandes.
Houve entretanto uma pessoa de grande abertura cultural que igualmente me prodigalizou a sua simpatia, o Senhor Vasconcelos, que já faleceu há muito, que era tipógrafo compositor na Gráfica de Leiria e músico (clarinetista e saxofonista) e ensaiador no Orfeão, de que eu fui membro.
Entre muitas conversas que travei com ele, saliente-se um enorme serão que passamos, acompanhados ainda por terceiro elemento, colega meu de escola e igualmente 2º tenor do orfeão (naipe ensaiado pelo Senhor Vasconcelos).
Por uma serena noite de Verão passeámos lentamente ao longo de todo o enorme “Marachão”, abaixo e acima, desenvolvendo ele uma apresentação bem detalhada de todo o conceito das ideias do espiritismo, a organização do cosmos, a reencarnação, etc. etc.
Não me esquecerei jamais da fórmula com que deu início à longa e para mim inesquecível conversa havida:
“…Caros amigos, talvez não seja por acaso que nos encontrámos hoje, pelo que vou aproveitar, se não recusam a oportunidade, para vos falar de um assunto bastante interessante…”
Encontrei muito mais tarde o terceiro presente nessa ocasião (o meu amigo EMC), que disse nada ter retido de aproveitável dessa conversa, o que lamentei sem dramatismos, certo que para ele também chegará a hora de entender.
No que me toca a mim, devo confirmar com imensa gratidão espiritual e a maior alegria de alma, que não foi de facto “por acaso” que o Senhor Vasconcelos teve aquela generosa ideia e desenvolveu toda a sua convicta eloquência.
Tenho-o recordado com imensa fraternidade nas minhas preces e espero um dia reencontrá-lo, para passear de novo com ele, longamente, por veredas frondosas inundadas de luz, recordando com imenso carinho a fresca humidade nocturna das margens do Rio Lis, de um serão iluminado por revelações generosas e descobertas surpreendentes.
Fins de Junho de 2011
José da Costa Brites


Adorei ler o seu testemunho, amigo.
Vivi 30 anos na praia da Nazaré, frequentei também o Centro que lá existia, mas ia às Segundas e às Quartas à Associação Espírita de Leiria (Barosa). Fui levada pela mão de um anjo, posso-lhe dizer. Só sei que depois de tantos acontecimentos da minha vida foi no Centro, nas sessões de ajuda, no estudo, nos passes e nas palestras que encontrei muitas respostas para os meus porquês.
Agora estou há cerca de 4 anos a residir na Póvoa de Varzim e frequento sempre que posso, à Segunda o apoio fraterno e à Sexta a palestra, tratamento à saúde e passe.
Tem sido a força para enfrentar todas as dificuldades por que passei e que ainda terei de passar. Andei anos para me encontrar. Quando chegou o momento entreguei-me e empenhei-me no estudo e todos os problemas desapareceram, ou talvez não. Como aprendi a lidar com eles de outra forma, acho que deixaram de ser problemas e passaram a ser soluções para avançar na minha evolução terrena.
Grata, amigo, por partilhar connosco. Todos precisamos de acreditar em algo que não vemos mas que sentimos muitas vezes.
Bem haja pela ajuda que dá para ficarmos mais esclarecidos acerca da doutrina espírita.
Aquele abraço fraterno, amigo.